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Rapper Vera Veronika canta a negritude e periferia brasileira em disco “Afrolatinas”

Escrito por Marcelo em . Postado em Músicas

Rapper Vera Veronika canta a negritude e periferia brasileira em disco “Afrolatinas”

Com mais de 25 anos de carreira, Vera Veronika lança um novo disco. Incluindo as versões únicas criadas para o DVD “Vera Veronika 25 anos”, o álbum “Afrolatinas” surge como mais um detentor de sucessos da rapper brasiliense, que versa em suas canções a raça negra e a luta e resistência da mulher da periferia. O álbum está disponível nas plataformas de streaming.

Brasília é o quadradinho dos diversos gêneros musicais e de artistas expoentes da música no país. Um desses talentos notáveis  é a rapper Vera Veronika, que valoriza toda a cultura negra e o hip hop do Distrito Federal. Vera é um dos nomes célebres da cena brasiliense, e conquista o público pela versatilidade e polivalência nas canções sobre a classe baixa, a mulher e a negritude. “Afrolatinas” trata sobre esses temas com maestria.

O trabalho enaltece o lado humano de Vera. Mantenedora de abrigo infantil, pedagoga, empreendedora e consultora nas causas de Direitos Humanos, Vera Veronika sempre encontrou no rap a força necessária para lutar contra tudo o que parecia injusto. Desde o começo dos anos 90, a cantora é tida como voz ativa na história do rap nacional e inspira gerações de mulheres que se dedicam ao estilo musical. Sucessor de “Mojubá” (2017), o novo registro reúne letras corajosas que escancaram a outra face do Brasil.

As 12 faixas presentes no disco escrevem, por meio da arte e poesia, uma mensagem para um público específico, um nicho que compreende a ideia das músicas e reflete sobre cada verso escrito por Veronika. Entre os destaques estão “Minha Cor” e “Afrolatinas”, que falam sobre o povo negro, suas conquistas, lutas e a negritude feminina; “Marchemos” e “Mulher de Aço”, que canta sobre a importância da Marcha das Mulheres e narra o desafio de ser uma presença feminina no hip-hop, respectivamente; e “Heroínas de Geração”, pondo a mulher em pauta ao discutir suas lutas cotidianas na periferia.

As faixas desenham um Brasil atual que insiste em aparecer no cotidiano e noticiários. Assim como “Diversas”, uma crítica ao padrão de beleza imposto pela sociedade, em pleno equilíbrio com “De Volta às Origens”, que canta a diversidade cultural existente em Brasília. “Profissão Perigo” revela o cenário violento que atravessa a educação no país, da mesma forma que “Pátria Amada” critica a corrupção política. “Sem Poder Voar” e “A Posse” são faixas que narram a realidade periférica.

“Afrolatinas” conta com participações especiais de Moara, Rapadura, Rafinha Bravoz, Hadda, Martinha do Coco e Batuqueiras. O álbum já está disponível em todas as plataformas de música digital e foi baseado no DVD comemorativo “Vera Veronika 25 anos”, gravado em Brasília, que contou com 14 faixas, 11 clipes e a participação de mais de 215 artistas.

Faixa-a-faixa, por Vera Veronika

Osun

A música faz referência à Deusa as águas, Osun, agradecendo a força e alegria que reluz nas batalhas do dia a dia. Especificando suas características no decorrer da melodia, percorro cada detalhe da rainha das águas doces deixando claro como essas peculiaridades interferem nas lutas diárias.

 Minha Cor

A música “Minha Cor” percorre a história do povo negro desde a época da escravidão, até os dias atuais, exaltando suas lutas, conquistas, heróis e heroínas que guerrilharam para conseguirem se livrar das correntes que os impediam de viver dignamente. Denuncia também os resquícios causados pela servidão e as diversas formas de racismo que o negro sofre até hoje. No entanto, é no refrão que orgulhosamente digo: “Às vezes me chamam de negro pensando que vão me humilhar. Mas o que eles não sabem e que só me fazem lembrar, é que venho daquela raça que lutou pra se libertar!”.

Diversas

“Diversas” faz uma crítica ao padrão de beleza imposto pela sociedade, o qual muitas mulheres sofrem, ficam doentes e até mesmo acabam morrendo tentando alcançar a “beleza ideal”.

De Volta às Origens

Na música “De volta às origens”, verso sobre a diversidade cultural existente na capital do país, Brasília. Durante a construção, pessoas de todos os estados brasileiros vieram para o Planalto Central, onde se instalaram e mantiveram seus costumes de origens, o que fez com que em cada canto das periferias de Brasília se depare com sotaques, comidas típicas e formas culturais diferentes.

Marchemos

Esta música aborda a importância da Marcha das Mulheres para o status quo no qual estamos inseridos. Fala sobre a união e a liberdade de expressão adquirida pelo laço de luta e identidade entre as mulheres sem haver nenhum tipo de padrão imposto. Denunciando assim o genocídio feminino, feminicídio, sexismo e o machismo.

A Posse

A música “A Posse” nos remete ao direito de cantar e rimar a realidade periférica. Expressa e denuncia a alienação midiática, a enganação do povo por um opressor oculto e a regressão governamental em decorrência de políticas públicas e escassez educacional.

Mulher de Aço

A narrativa musical decorre sobre o desafio da mulher no cenário do Hip Hop, no qual, em meio a um espaço machista, se ressignificam a cada dia através do grafite, break, poesia e música. Utiliza a arte como válvula de escape do cotidiano familiar e financeiro, além de denunciar séculos de opressão e violência.

Sem Poder Voar

Contando a história de uma presidiária e suas angústias vivenciadas dentro de uma penitenciária, a música “Sem poder voar” aborda a desilusão e frustração que a vida do crime proporciona. Diante desse cenário, a personagem musical sonha em cumprir com sua dívida social e ser exemplo de uma caminho a não ser seguido para outras jovens, desejando dessa forma uma mudança pessoal e social ao sair da prisão.

Afrolatinas

Abordando as articulações de mulheres negras, fruto de uma conexão que busca qualidade de vida entre elas e as que estão por vir, a música “Afrolatinas” traz em sua melodia o imaginário de mulheres negras, latinas e caribenhas, que juntas se fortalecem e constroem uma ofensiva a esse projeto de sociedade racista e machista.

Profissão Perigo

A música “Profissão perigo” descreve o que é ser professor (a) em uma sociedade onde a escola, lugar de aprendizado e transformação, é simplesmente cenário de sucateamento, violência e desrespeito. Vítima de um modelo educacional político social e histórico precário, o educador precisa criar força e disposição para cumprir sua missão de transformar o futuro daqueles alunos dentro da sala de aula.

Heroínas de Geração

“Heroínas de Geração” discute sobre as lutas cotidianas das mulheres na periferia, fortalecendo e apontando para mais e mais desafios a serem superados diariamente. Durante a música, falo sobre profissão de “prostituta”, ser mãe solteira, viver um casamento de agressões físicas e psicológicas, além de ressaltar as consequências por ser mulher negra.

Pátria Amada

Uma denúncia à corrupção política e econômica do Brasil do início ao fim da música, “Pátria Amada” faz um apelo aos brasileiros para lutarem juntos pelos seus direitos básicos de saúde, educação, segurança e moradia. Umas das frases que nos remete a um poder popular durante a música é a seguinte: “Brasil para os brasileiros e não depósito de mercadoria para os estrangeiros”.

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