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Emicida fala em seu perfil do Facebook Sobre o Fato de Participar da nova novela da Globo "Sangue Bom"

Escrito por Marcelo em . Postado em Informativo

Emicida"...desde a escravidão somos desunidos, aliás essa desunião favoreceu muito os escravistas, que utilizavam esse separatismo pra alavancar seus interesses podres."
 
Sabe...
 
Eu sempre reflito muito antes de rebater quaisquer críticas, penso sobre elas, busco extrair o melhor delas, às vezes minha busca é inútil, esse pensamento surge no início, mas insisto em buscar ainda assim. Muita coisa já me pareceu inútil nesta vida: estudar, trabalhar, buscar evoluir, compartilhar o que aprendi com meus irmãos, enfim, muita coisa já me pareceu ser sem futuro, insisti e hoje observo feliz o resultado de ter acreditado em coisas inúteis, até das piores situações e dos erros extraí algo que me fez crescer, me pergunto se as pessoas têm conseguido fazer o mesmo.
 
Faço rap há alguns anos, mais de uma década, poderia ser marrento e dizer que desde que nasci sou isso, pois diferente de muitos, venho realmente de uma tradição de música de rua, meu pai era DJ, seu Miguel, coitado, morreu bêbado, sonhador frustrado porque não conseguiu fazer sua música gerar seu sustento. Minha mãe trabalhava na organização desses bailes, nesses papéis invisíveis, tipo carregar bebidas, contar moedas, arrumar fios elétricos, enfim, produção. Isso era 87, havia muitas equipes de baile ainda com muita força, Chic Show era uma das mais famosas, onde todos sonhavam tocar um dia. 
 
Enfim, não vou escrever minha biografia aqui, muito pelo contrário, vou pular uns 10 anos e refletir sobre os últimos 10 da minha vida no rap, estou há mais tempo nisso, mas os últimos 10 foram bem interessantes. Há 10 anos, Sabotage estava sendo assassinado, há 11 anos, nós que estávamos na multidão no meio dos shows de rap ouvíamos idiotas dizerem que ele era vendido por gravar com fulano, fazer tal coisa na TV ou no cinema, que tava no pano de num sei quem, fora vários apelidos pejorativos que arrumaram para ele para diminuir suas conquistas. Em momento algum esse texto visa comparar minha pessoa com a dele, aprendi com ele na condição de observador apaixonado por rap, menino de favela que sonha, só isso, ele já era mestre, alias, até hoje é.
 
O que pra mim é curioso (duvido que 30% das pessoas leiam até aqui) é que em 2003 ficamos órfãos de uma perspectiva como a dele nos representando em outros veículos que não fossem as calçadas, veio uma grande depressão para todo o movimento, temos obviamente uma infinidade de grupos talentosos, mas existe uma trinca inquestionável, acima do bem e do mal pra mim: Racionais, RZO e o finado Sabotage, mas abrindo portas como aquele neguinho estava não tínhamos muita gente.
 
A mídia tinha ali a notícia que mais adora dar: “rapper morto”, ponto final na construção da autoestima da favela. Ou quase, o hip hop continuava, sobrevivendo, como sempre sobreviveu. Poucos lançamentos, anos inteiros sem grandes eventos, poucos grupos novos conseguindo visibilidade, enfim, pouca esperança para quem sonhava em ver aquilo ser mais do que era, a nostalgia frequente, tínhamos um foco de resistência a Galeria Olido, onde freestyleiros se reuniam... eu, Rashid - na época Moska -, Projota, Rincon, Nocivo, Otimistas, Relatos da Invasão, Primeira Função, Marcelo Gugu, Flow, Criolo e vários outros talentos estavam buscando uma única e rara oportunidade de mostrar suas aptidões. 
 
Pois bem, através de uma atitude condenável do poder público na época, vincularam o nosso encontro a atitudes de vandalismo na região. Mesmo sendo clara a diferença entre os que iam ali pela música, fomos condenados e perdemos o único foco de resistência central que possuíamos. Dali até a Santa Cruz nascer foi algo entre um e dois anos.
 
Meu sonho era ser desenhista de quadrinhos, sempre fiz rap por amor, por hobby, por crer na cultura hip hop. Nem existia a possibilidade de fama na cabeça de quem fazia isso 15 anos atrás, alias, até hoje não me considero famoso, as pessoas sim, pergunte a alguém do meu convívio. Pego meu ônibus, como meu churrasco grego na rua e sinceramente quero que se foda se pra alguém eu sou um artista famoso inalcançável. Nunca saí da rua. Nem eu nem ninguém do meu pessoal da Laboratório Fantasma. A Santa Cruz foi revolucionária, não tinha porra nenhuma e fez acontecer na rua, correndo da polícia uma semana, correndo dos guardinha do metrô na outra, com blusa na cabeça em dias de chuva, mas todo sábado lá, firme, rimando, até hoje assim.
 
(neste ponto creio que todos já abandonaram o texto, que deve estar quilométrico) A Santa Cruz revigorou nossas esperanças, sou infinitamente grato à rapaziada da Afrika Kidz Crew, ao Flow, que estava ali todo sábado com um caderninho embaixo do braço anotando o nome de quem quer que chegasse pra batalhar. Aliás, até o Cabal foi tratado com respeito lá. Mesmo tendo desencontros com os caras fora dali, chegou, colocou seu nome no caderninho e aguardou sua vez. Ele foi lá antes de muito cara que, apesar de bater no peito e pagar de rua, só apareceu lá achando que o encontraria para humilhá-lo e fazer fama em sua derrota. Nunca falei disso, não preciso, meu foco é a construção, mas assisti a tudo calado, de canto, afinal de contas, nunca fui ninguém... 
 
Vieram muitas batalhas, muitas, torneios e, graças a Deus, eu estava mais bem preparado que meus adversários e venci, me tornei uma referência no freestyle. Aliás, tem um negócio engraçado, fiquei famoso, ganhei a Liga dos MCs no Rio graças ao Pedro Gomes, que pagou minha passagem. Voltei com mil reais no bolso, dormi na escada de casa no Cachoeira, no sereno, no frio, porque não havia avisado minha mãe que iria pro Rio de Janeiro. Ela se zangou e trancou a porta por dentro.
 
Gravei Triunfo graças ao Felipe Vassão, que me mostrou que eu tinha algo de valor nas mãos. Talvez se não fosse ele eu estaria indo nas batalhas de freestyle semanalmente até hoje e reclamando da falta de espaço que o rap tem. Da Triunfo veio a primeira mix tape e a segunda até chegar hoje, às vésperas do meu primeiro álbum oficial. Conseguimos sair do nada e ter tudo. Sem maldade, não preciso de mais nada, tenho minha casa, minha empresa, meus shows aqui e fora do Brasil... enfim, a cada passo choviam críticas, obviamente sempre vêm mais aplausos, bem mais, estou aqui como prova disso. Nunca revidei. Existem milhares de histórias sobre mim, sobre indiretas em rimas para fulano ou sicrano, nunca revidei, não preciso, preciso fazer música. 
 
Nestes anos, não preciso mentir, ganhei um dinheiro que nunca tinha imaginado, gastei também, muito aliás, estudando principalmente. Devo ter gastado 80% do que ganhei em livros, viagens e filmes, mas hoje conheço muito mais sobre meu país, minha história e meu povo. Estes estudos me mostraram que desde a escravidão somos desunidos, aliás essa desunião favoreceu muito os escravistas, que utilizavam esse separatismo pra alavancar seus interesses podres. Combato isso dia após dia: a desunião. Mas é um processo de séculos e ainda tenho muita luta pela frente, duvido que minha filha veja isso acabar, ou mesmo a filha da filha dela.
 
Nestes anos fizemos os jornais mais conservadores/preconceituosos e racistas também elogiarem o hip hop e reconhecerem que ali havia algo muito valioso a ser conhecido e reconhecido pela cultura brasileira. Fomos a programas de TV e de rádio, locais que sempre ridicularizavam o rap, e os fizemos, através de nosso esforço, respeitarem isso. Sempre voltam as críticas e os aplausos, sempre mais aplausos, sempre mostramos respeito e admiração por todas as vertentes e gerações que nos antecederam, aliás, fomos nós, sozinhos, que trouxemos Pepeu de volta ao palco mais de 16 anos depois e fizemos a nova geração se emocionar ao vê-lo ao vivo.
 
E quem critica, fez o quê? Vai contar o quê? Construiu o quê? Porque eu vi e fiz o rap brasileiro chegar lá na Califórnia e dividir o festival com Nas, Damien Marley, Kanye West, Wiz Khalifa e outros monstros. Quem criticou fez o quê? Eu e meu pessoal, que é muito mais gente do que os que trabalham aqui no Lab todo dia, nós fizemos o rap ser capa dos cadernos de cultura mais elitistas de uma forma respeitosa, alcançando e mudando a perspectiva de milhares de pessoas. Quem jogou pedra construiu o quê? Reclamamos que os pretos eram tirados nas propagandas, aliás ainda são, colocamos nós mesmos em algumas para abrir esse espaço. Foi por fama? Não, foi porque os pretos precisam aparecer de uma forma respeitosa, o rap precisa aparecer de uma forma que não seja caricata, em que reduzam nossa música e nossa história como sempre fizeram/fazem. Tentamos e conseguimos, hoje não se pensa mais em indústria cultural sem pelo menos se perguntar o que tem acontecido no rap. Quem jogou pedra fez o quê? Construiu o quê? Partimos do nada, chapa, seguimos independentes e monstruosos, mais rua que nunca, batendo pesado e alcançando lugares novos, abrindo mentes e quebrando barreiras. 
 
Elisa Lucinda uma vez falou no palco sobre o quão foda éramos por ser do tipo que “pegava mulher sem carro”. Eu amplifico: pegamos mulher sem carro, somos capa do jornal sem lobby, tocamos no rádio sem jabá e invadimos a TV sem contrato, maloqueiros no comando, fazemos tudo o que queremos fazer, livres. Quem joga pedras pode fazer o quê? E participar de uma novela no papel de Emicida só é mais um motivo de orgulho: eles perceberam que gente como noiz é interessante o suficiente pra estar na TV, não precisa encarnar nenhum personagem. 
 
A quem possa interessar, estamos bem, obrigado por perguntar.
 
Obrigado Dina Di, DJ Primo, Sabotage, Niggaz, Van Grog e tantos outros que vimos falecer sonhando com um dia em que o hip hop teria mais visibilidade e respeito. Aos que não sabem, não conseguem ou não reconhecem isso como conquista: vocês são livres para criticar, jogar pedras etc., mas pelo menos trabalhem mais, construam pra poder mostrar o quão obsoleta é nossa forma de agir e pensar, pois eu só vou considerar relevante quando ver que fizeram pelo menos metade disso que fizemos.
 
Até então segue tudo sem novidade, quem é de trabalhar trabalha e o resto é resto.
 
A rua é nóiz
 
E.m.i.c.i.d.a. 
 
 

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