Imprimir

Rap: consciência, resistência e transformação na minha vida

Escrito por Marcelo em . Postado em BSB

Negro Tchela“A revolução proposta pelo Rap não está na música em si, mas nas atitudes daqueles que verdadeiramente o escutam e têm compromisso com o Hip-Hop.”

Escrito em 2009.

Conheci o hip-hop por meio do rap nacional, estilo musical. Isso há algum tempo, acho que há uns 13 anos atrás. De lá para cá não consegui mais parar de me envolver com esse movimento urbano composto de quatro elementos: MC, mestre de cerimônias; DJ, maestro, ou, disco divertido, tradução de Disc Jockey; break, a dança e o grafite, arte plástica. No entanto, minha atuação dentro dessa cultura ficava meio que restrita a ouvir e a escrever letras de rap, ritmo e poesia. Procuro entender o que os rappers falam e nas minhas letras tento passar uma mensagem positiva, além de denunciar a situação de descaso que vivemos nas periferias e favelas do Brasil.

Hoje, depois de mais dez anos ouvido rap aprendi que de longe podemos até sermos iguais, mas à medida que nos aproximamos as diferenças começam a aparecer. Esse estilo musical faz refletir sobre algumas situações do dia-a-dia e a partir disso compreender que o preconceito existe. Não que não seja possível identificá-lo de forma empírica. É que no Brasil a existência do preconceito é negada. Tentam vender a idéia da democracia racial, - que, a meu ver, está bem longe de existir.

Refletindo no tratamento que as autoridades têm com a população em geral é possível identificar que a justiça não é cega como afirmam. E o tratamento que essa tem com as pessoas vai depender da classe social, da cor, do sexo, da vestimenta etc. O Rap me proporcionou um olhar mais crítico, o que às vezes e desconfortante, pois parece que você vê problemas nas coisas consideradas “normais”.

É preciso falar, também, que ao longo desses anos que curto rap escutei algumas músicas feitas por pessoas que se dizem MC’s, mas que nem conhecem o significado da sigla, portanto, são letras na sua maior parte descompromissadas com o movimento e com o povo pobre. Não que o rap só deva falar sobre uma quantidade limitada de temas. Mas, acredito que quem é do Hip-Hop deve ter o cuidado para não manchar essa cultura, que já é muito discriminada, e ainda deve conhecê-la, mesmo que pouco.

Chegar e falar que curte Rap ou é um rapper não é fácil. Nunca foi. O preconceito ainda é grande. Porém, nunca tive vergonha de dizer que escuto esse tipo de música. E sempre procurei mostrar que aqueles que me criticam estão errados. Principalmente por ser julgamentos de pessoas que não conhecem o Movimento Hip-Hop e ainda generalizavam dizendo: rap é coisa de bandido. – Escutei muito essa frase, mas abaixar a cabeça jamais. Hoje ainda vejo muitas informações enganosas, principalmente da grande imprensa, que quando não vem com acusações, tentam deturpar o movimento sem conhecê-lo.

Uma coisa que aprendi com o rap, é que nada se conquista sem muita luta, principalmente para a população menos desprestigiada, que vive às margens da sociedade. Essa peleja já me rendeu algumas conquistas sendo a maior delas a consciência de sempre correr pelo certo. O Rap me mostrou que sempre há saída e que a vitória pode levar algum tempo, mas com muita determinação ela virá. Talvez inconscientemente este tenha sido (e é) meu lema: paciência e luta. Assim como o Rap que vem há anos tentando sobreviver em meio a dificuldades de todos os tipos. Procuro continuar na luta por aquilo que sempre acreditei: transformação da pessoa através de um movimento que visa à diversão e a conscientização. Caminhando meio que na contra-mão desse mundo cada vez mais capitalista, onde como diz os Racionais MC’s “Você vale o que tem”.

Negro Tchela

Rapper, poeta e sonhador.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar