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Hip-Hop: uma breve explanação

Escrito por Alexandre em . Postado em História do Hip Hop

Hip-Hop: uma breve explanação
(resultado de pesquisa para trabalho escolar feito em 2007)
Autor: Negro Tchela

1 Introdução

Surgido no gueto em meio à violência, preconceitos, descaso das autoridades governamentais e diversos outros problemas sociais que os subúrbios estão sujeitos, o Hip Hop é hoje uma das maiores formas de manifestação cultural de jovens, na maioria negros, urbanos. É uma cultura que se manifesta de diversas formas, seja por movimentos corporais, ondas sonoras ou através da arte plástica.

Mesmo que de maneiras diferentes os quatro elementos do Hip-Hop estão em sintonia, conseguindo transmitir as mesmas mensagens, podendo ser: de indignação, de esperança, auto-estima, alegria etc. A frase de um de seus criadores, Afrika Bambaataa, ilustra bem essa idéia: paz, amor, união e diversão. Sendo a finalidade maior transformar a vida dos jovens dos bairros pobres.

Assim é o Hip Hop, uma cultura feita pelo povo e para o povo. Uma ferramenta disponível e acessível para classe pobre com grande poder de transformação social.

2 Nascimento de uma cultura

Um movimento popular como o Hip Hop não poderia nascer em outro lugar senão nas ruas. Surgiu na década de 70, nas ruas do Bronx, Nova Yorque, Estados Unidos, bairro formado na sua maioria por negros e latinos. É composto por quatro elementos que se expressão por meio de três modalidades artísticas: a música, a dança e a pintura. Seus elementos são: o Break, representa a dança; a arte plástica fica a cargo do grafite; o Disc Jockey (DJ), disco divertido, é o maestro, contribui com discotecagem; e tem, também, o Mester of Ceremony (MC), mestre de cerimônias, esse último elemento é animador da festa, aquele que transmite as mensagens “verbais”, carrega consigo o dom de rimar. É preciso ressaltar que a “fusão” do elemento da discotecagem com o a Mestre de Cerimônia deu origem ao estilo musical muito conhecido no mundo: o Rap, Rythm and Poety, ritmo e poesia.

“O hip hop é ilustrado por personagens sobreviventes de guerra. Uma guerra diária pela vida. Ele acolhe e tenta proteger os que já nascem condenados à morte. Personagens reais, cercados pela miséria, fome, desinformação, violência, crueldade, desemprego, drogas, descaso, desabrigo, armas de fogo, tráfico e desrespeito. Em meio a tantas armas que eles podem escolher no jogo real do “matar ou morrer”, o hip hop escolhe a maior de todas as armas: a cultura. Uma cultura marginal, mas que não é propriedade dos grandes, não é da elite nem da burguesia. É a cultura de quem foi capaz de criá-la e levá-la adiante. É a cultura das ruas, do povo.” (MOTTA, BALBINO, 2006)

A expressão Hip Hop já existia antes da década de 60. Foi criado em 1968 por AfriKa Bambaataa. Esse movimento tem seu nascimento oficializado em 1974, segundo os registros da Zulu Nation, maior, e primeira organização de Hip Hop do mundo, com representantes em vários países, inclusive no Brasil.

A Zulu Nation foi criada por Bambaataa em 12 de novembro de 1973 com o propósito de resgatar vidas em meio à violência.

No final dos anos 60 muitos jovens de Nova Yorque faziam parte de gangues e viviam envolvidos em disputas sangrentas. Bambaataa, que também fazia parte de uma, cansado de tanta violência, procurou transformar essas guerras em disputas artísticas. Surgiu então o Hip Hop. “Que significa saltar - to hop, em inglês-, movimentando os quadris - to hip-“ (MOTTA, BALBINO, 2006). Segundo Gilberto Kurita Yoshinaga, em sua monografia: Resistência, arte e política: registro histórico do rap no Brasil, a expressão gíria “HIP-HOP” exprime um incentivo à dança e à diversão, algo como ‘agitar os quadris’. No entanto, o Hip Hop, é muito mais que isso. Ele propõe uma mudança de postura e realidade social, o primeiro leva ao segundo que só pode ser alcançado mediante a conscientização dos participantes.

3 Os elementos

3.1 Disc Jockey (DJ)

Vários foram os DJ’s que contribuíram para o nascimento e crescimento da cultura, como: DJ Qbest, DJ Grand Wizard Theodore, DJ Grand Máster Flash, Kool Herck e outros. Porém, a participação do último foi muito significativa. Algumas de suas iniciativas acabaram norteando o Hip-Hop para o que ele é hoje. 

Heck nasceu na Jamaika no bairro kignston. Aos 12 anos migrou para os Estados Unidos, levando em sua bagagem alguns elementos da cultura Jamaikana, entre eles o Soud Sistens, sistema de som, e também o toat, modo de cantar bem parecido com o Rap, ou seja, rimas feitas de modo fraseado, muitas vezes politizadas, cantadas em cima de instrumentais. Contudo na Jamaika essas instrumentais eram no estilo raggee.

O Sound Systens proporcionou o surgimento das Black parties, festas de quarteirão. Muitos DJ’s passaram a ser produtores dessas festas, onde ocorriam muita diversões e disputas artísticas.

A interação com o público ocorria através das rimas. Buscava-se com isso animar as festas ou transmitir mensagens aos participantes. Essa era a missão do Mestre de Cerimônias (MC).

3.2 Master of Ceremony (MC)

O Mestre de Cerimônias, MC, era o cara que animava a festa mandando suas mensagens em forma de rimas, buscava prender a atenção do público atentando para questões políticas, sociais ou simplesmente animava as festas.

No inicio o DJ, além de ser o responsável pela trilha sonora do Hip Hip era também o MC. Transmitia suas mensagens à “galera”. Com o tempo o DJ acabou passando o microfone para outras pessoas, dissociando, assim, o DJ do MC.

Com a introdução dos Breakbeat, técnica onde se tocava, apenas, a partes da música que possuía as batidas e melodias, criou-se aos MC’s a possibilidade de formularem melhor suas rimas, em cima de instrumentais, e aos B.boy’s (dançarinos) ensaiarem suas coreografias.

“Na empolgação das festas, Herc percebeu que os breaks das músicas agradava aos que se arriscavam às performances na pista de dança. Teve então a idéia de tocar o mesmo break sem parar, mas como fazer isso? Experimentou algumas técnicas e descobriu que com dois toca-discos e dois vinis iguais ele poderia arranhar, produzindo o mesmo break, com o auxílio de um mixer – aparelho que une os toca-discos e ajusta a sincronidade dos vinis.” (MOTTA, BALBINO, 2006).

3.3 Break 

O Break não é só uma arte corporal, diversão. É, também, uma forma de protesto. Segundo Andrada, citado por Waldemir Rosa:

“Eles protestavam contra a Guerra do Vietnã e lamentavam a situação dos jovens adultos que retornavam da guerra debilitados. Cada movimento do break possui como base o reflexo do corpo debilitado dos soldados norte-americanos, ou então a lembrança de um objeto utilizado no confronto com os viatinamitas. Por exemplo, alguns movimentos do break são chamados de giro de cabeça, rabo de saia, saltos mortais, etc. o giro de cabeça, em que o indivíduo fica com a cabeça no chão e, com os pés para cima, procura circular todo o corpo, simboliza os helicópteros agindo durante a guerra.”

Break, em inglês, significa quebrar. Seus movimentos, muitas vezes, robóticos, outras, próximos aos da capoeira, procuram estar em sintonia com a música. Foi uma das formas de buscar diminuir as brigas entre as gangues. As disputas sangrentas eram trocadas por disputas artísticas. Essa dança exige de seus praticantes muito preparo físico, agilidade, técnica, criatividade e outros. Sendo esse o elemento que deu inicio ao Hip Hop na década de 80 no Brasil.

O Break começou a achar seu espaço quando os DJ começaram a tocar a parte da música, Funk, que era composta de batidas e melodias, os chamados breakbeat. Com isso os B.boy acabaram achando o espaço para praticar sua arte: a dança.

3.4 Grafite

O grafite, dentro do Hip Hop, surge na década de 60, nos guetos de Nova York, em forma de tag’s, assinaturas. Era uma forma das gangues demarcarem seus territórios. A partir do momento surge o a cultura Hip Hop, esses assinaturas ganham contornos e objetivos diferentes. Transformam-se, então, em painéis coloridos que muitas vezes denunciava uma situação de opressão sofrida por habitantes de bairros pobres dos Estados Unidos da América.

Os grafites é arte plástica do movimento Hip Hop. Foi uma importante ferramenta na divulgação da cultura. Foi através de seus desenhos estampados em muros e trens que o Hip Hop, a partir da década de 70, começou a ser difundido. “O movimento dos grafiteiros nos Estados Unidos significou a invasão das áreas nobres das grandes cidades por aqueles que viviam segregados nos guetos e subúrbios pobres.” (Waldemir Rosa, 2006) 

3.5 O Rap (Rhythm and Poetry)

O Rap, ritmo e poesia, é a expressão musical do Hip Hop. É a fusão da dicotecagem, ritmo, proporcionada pelo DJ, com a rima trabalhada pelo MC, poesia. Como foi dito, de inicio o DJ possuía também o microfone. Era ele que animava a festa e transmitia as mensagens. Com o passar do tempo, porém, esse microfone foi passado para outras pessoas que participavam da festa. Portanto, a função de DJ se dissocia a do MC. Com isso o MC passou a formular melhor suas rimas acarretando no surgimento do Rap.

O Rap surgiu da apropriação de fragmentos, os breakbeat, de estilos musicas negros, como o Soul, e o Funk. Criavam em cima dessas partes, rimas que denunciavam uma situação de descaso sofrida. Tricia Rose (1994) citado por Waldemir Rosa ressalta que: o Rap figura-se, na cultura norte-americana contemporânea, como uma expressão das vozes negras à margem da sociedade.

“O rap é a arte do canto falado e ritmado e tem origens nas raízes históricas, nos jogos de rimas e na transmissão verbal de histórias e contos. Essa atividade é comum entre os afro–descendentes.” (MOTTA, BALBINO, 2006)  

O Rap é a manifestação musical do Hip Hop. Suas características, na maioria das vezes, vão depender do contexto onde é produzido, visto que procurar relatar uma realidade, ou da própria necessidade de expressão daquele que vê no Rap um meio de se fazer ouvido.

4 Hip Hop no Brasil

No Brasil, o Hip Hop, teve seu surgimento no inicio da década de 80 na cidade de São Paulo. Primeiramente na Rua 24 de maio, onde havia uma reunião com os primeiros B.boy. Ali eles se reuniam e ensaiavam seus primeiros passos. Começou como Break a história desse movimento cultural no Brasil, que depois se espalhou e hoje pode ser encontrado na maioria dos capitais brasileiras e até mesmo no interior desse imenso país.  

5 As disputas artísticas

Percebe-se dentro do Hip Hop que a maioria de seus elementos serviam, também, de ferramentas de disputas. Muitas gangues se transformam em crew, grupo, e usavam os elementos do Hip Hop como um meio de competição, - e porque não dizer de interação, e um meio de entendimento. No trabalho: Hip Hop a cultura marginal: do povo para o povo, suas autoras citam uma fala de Afrika Bambaataa, um dos criadores desse movimento: 

Quando nós criamos o hip hop, nós o fizemos na esperança de que ele gerasse paz, amor, união e diversão para afastar as pessoas dos negativismos que estavam infectando nossas ruas (brigas de gangues, uso de drogas e baixa auto-estima entre afro e latino - descendentes). (TANAKA apud MOTTA, BALBINO)

São formas de competição: freestyle, rimas improvisadas. Tentam, os Mc’s, por meio da criatividade, vencer o outro competidor; rodas de break, o dançarino “desafia” com a sua performance o adversário; também, existe a batalha dos DJ’s, onde cada músico procura com a maior eficácia tirar o melhor som e efeito da sua pick-up[1].          

6 A consciência social do Hip Hop

O Hip Hop nasceu com a intenção, dentre outras coisas, de dar ou, buscar uma solução para muitos problemas sociais. O seu objetivo é, também, - trocar brigas sangrentas por disputas artísticas. Com isso surgem nesse movimento muitas iniciativas de cunho popular:

O Movimento Hip Hop Organizado do Brasil (MH2O), organização de Hip Hop que atua em 14 estados brasileiros. Desenvolve atualmente projetos e programas nas linhas: cultural e educacional, regionalização da cultura de rua, econômica social e combate a violência e autodestruição da juventude;     

Central Única das Favelas (Cufa) é uma entidade que surgiu através de reuniões de jovens de várias favelas da cidade do Rio de Janeiro na busca por espaço na cidade para expressar suas atitudes e questionamentos.

A CUFA funciona como um pólo de produção cultural, e através de parcerias, apoios e patrocínios forma e informa jovens de comunidades, oferecendo perspectivas de inclusão social. Promove atividades nas áreas da educação, lazer, esportes, cultura e cidadania trabalhando com oito projetos: graffiti, DJ, break, rap, audiovisual, basquete de rua, literatura além de outros projetos sociais. Além disso, promove, produz, distribui e veicula a cultura hip hop através de publicações, discos, vídeos, programas de rádio, shows, concursos, festivais de música, cinema, oficinas de arte, exposições, debates, seminários e outros meios.

7 Conclusão

Hip Hop é um movimento social urbano periférico. Uma forma de resistência daquele que sofre opressão, que não se vê representado numa estrutura social excludente, que procura diversão, que procura se dar uma oportunidade etc... Mas, acima de tudo é uma arte, vivida pelos vários sentidos.

                                                                                                              

8  Referências bibliográficas

MOTTA, Anita; BALBINO, Jessica. Hip hop: a cultura marginal: do povo para o povo. 2006. Disponível em: <http://bocadaforte.uol.com.br/site/>. Acesso em: 15 set. 2007. 
 
RAP. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Rap>. Acesso em 21 out. 2007.
 
ROSA, Waldemir. Homem preto do gueto: um estudo sobre a masculinidade no Rap brasileiro. 90 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social) - Departamento de Antropologia, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, 2006.
 
SOUZA, I.C.; NISTA-PICCOLO, V. L. Hip Hop e educação física escolar: possibilidades de novas tematizações. Disponível em: <http://bocadaforte.uol.com.br/site/>. Acesso em: 15 set. 2007.
 
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, arte e política: registro histórico do rap no Brasil. São Paulo, 2001. Disponível em: <http://bocadaforte.uol.com.br/site/>. Acesso em: 15 set. 2007.


[1] Instrumento usado pelos DJ’s para tocarem suas músicas e seus efeitos.